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ago

Escândalo Zara: a ética do capital

por Police Neto, 04:22
Escândalo Zara: a ética do  capital

Os nobres aragoneses faziam às  Cortes espanholas do final da Idade Média um juramento de fidelidade ao rei  bastante curioso: "Nós, que somos tão bons como vós, juramos a vós, que  não sois melhores que nós, que vos aceitamos como  nosso soberano,  contanto que observeis todas as nossas liberdades e leis, mas se assim não  for, então não". A despeito da grande autonomia expressa no juramento a  Espanha esteve entre os primeiros países nos quais o absolutismo conseguiu  se consolidar, a despeito de todas as diversidades regionais, econômicas e  linguísticas. De lá para cá muitas vezes a Espanha se mostrou sujeita a uma  divisão interna séria, como nas guerras Carlistas do Século XIX entre  liberais e reacionários e na Guerra Civil espanhola. Uma das contradições  espanholas mais recentes acabou por explodir nestes dias aqui no Brasil com  o escândalo da exploração de trabalho escravo pela Zara, do grupo espanhol  Inditex.
 
O episódio é tão rico em  detalhes e metáforas que pode acabar escapando seu sentido e interpretação  mais profundos. Poderia se falar da imagem da contradição de roupas caras de  griffe a venda nos melhores shoppings ter sido tecida pela miséria do  trabalho escravo. Poderia se falar de uma Espanha na qual a xenofobia foi a  arma mais insidiosa da campanha eleitoral ao mesmo tempo que um dos seus  mais importamtes conglomerados trafica imigrantes bolivianos para tirar-lhes  toda a dignidade numa vida de escravidão no Brasil. Poderia ser falado como  uma grife famosa se torna agora uma anti-grife na medida em que qualquer  pessoas que usar roupas da marca estará publicamente admitindo que compactua  com a escravidão e não está nem aí para o sofrimento. Todas estas mensagens  e outras que poderia ser tiradas são verdadeiras e tem sua importância. Mas  elas não podem ocultar o grande plano no qual se desenrola a grande  contradição na economia e na política que o Escândalo Zara desnuda. Esta  contradição, que contém e resume as anteriores, é de um país cuja juventude  está na vanguarda das manifestações que expressam um desejo de uma Nova  Política e cuja velha elite econômica, da qual o Grupo Inditex é notável  expoente, pratica o regresso às práticas mais infames da humanidade para  aumentar seu lucro.
 
Na base da crise política  espanhola está sobretudo o desemprego entre os jovens mais escolarizados,  desesperados com a falta de perspectivas para suas vidas e acuados por um  governo que para sustentar a banca internacional reduz a oferta de serviços  sociais. Para que gerar empregos caros na Espanha se é possível reeditar a  escravidão nas "colônias" até em segmentos de ponta com elevadíssimo valor  agregado como roupas de luxo, devem se perguntar os rentistas que ao mesmo  tempo beneficiam-se das políticas governamentais espanholas de garantir seus  lucros e geram a crise ao votar em políticas como a da Zara nas reuniões de  acionistas.
 
Mas esta contradição econômica  que parece extraída de um filme de Michael Moore gera apenas um desconforto  político impreciso na Espanha como no Brasil. Na Espanha partidos com  campanhas nazistóides contra os imigrantes aumentaram suas votações,  chegaram a quintuplicar sua representação em plena Catalunha que sempre foi  vista como um berço do que havia de mais progressista na Espanha e é o foco  principal dos "Indignados". A explicação para esta aparente contradição  entre revolta progressista e voto reacionário é bem mais simples que a  maioria: os jovens preferiram não votar.
 
A ligação entre o desalento  político dos insatisfeitos e os resultados eleitorais favorecendo as  posições políticas extremadas no sentido contrário é tão comum que é quase  uma "lei" da ciência política. De um lado ao deixar de votar no "mal menor"  aumenta-se o peso eleitoral da visão mais oposta, de outro lado a  mobilização dos insatisfeitos também assusta e radicaliza a posição dos  "satisfeitos" levando-os a optar por uma plataforma política mais  intransigente na defesa de seus privilégios.
 
O mesmo movimento de busca no  lucro máximo sem controle que rouba os empregos dos jovens espanhóis rouba a  dignidade dos escravos bolivianos, o respeito às leis brasileiras e os  princípios mais básicos de humanidade a todos os envolvidos. Mas não se pode  ser ingênuo, quem anda pelas ruas do Glicério sabe a ocupação de tantos  infelizes bolivianos que encontra ali meio fugidios, desconfia de qual é a  função daqueles prédios sombrios nos quais eles entram apressados e  assustados. Novidade apavorante mesmo é aquilo que era renda marginal de  empresários inescrupulosos tornar-se política de recursos humanos de uma  grande corporação internacional que resolveu combater a pirataria  tornando-se o mais sórdido tipo de pirata, o traficante de escravos.
 
Ainda não apareceu ninguém  dizendo que ao menos a empresa estava gerando empregos no Brasil. Mas não é  impossível que aconteça porque a política de cortejar o capital  internacional a qualquer custo tornou-se tão arraigada que já não se olha  nenhuma relação custo/benefício desta submissão. Tanto o governo espanhol  que esquece e gera indignação nos seus jovens para garantir os lucros da  banca quanto todos aqueles que saudaram os "empregos" que as Zaras criam no  Brasil esquecem a natureza essencialmente egoísta deste capital  multinacional, o qual só espalhará miséria e sofrimento para ter lucro  máximo se não estiver delimitado por controles sociais bem definidos e  firmemente fiscalizados.
 
Nada contradiz mais o rótulo de  "moderno" que este capital usa para argumentar contra qualquer regulação  como o regresso aos piores momentos da senzala patrocinada pela Inditex.  Este escândalo grita aos nossos ouvidos que o capital livre do controle  social não produz riqueza nem progresso, apenas sofrimento e atraso. Mais do  que os jovens espanhóis, só podemos ficar  indignados.

 

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