Escândalo Zara: a ética do capital
Os nobres aragoneses faziam às Cortes espanholas do final da Idade Média um juramento de fidelidade ao rei bastante curioso: "Nós, que somos tão bons como vós, juramos a vós, que não sois melhores que nós, que vos aceitamos como nosso soberano, contanto que observeis todas as nossas liberdades e leis, mas se assim não for, então não". A despeito da grande autonomia expressa no juramento a Espanha esteve entre os primeiros países nos quais o absolutismo conseguiu se consolidar, a despeito de todas as diversidades regionais, econômicas e linguísticas. De lá para cá muitas vezes a Espanha se mostrou sujeita a uma divisão interna séria, como nas guerras Carlistas do Século XIX entre liberais e reacionários e na Guerra Civil espanhola. Uma das contradições espanholas mais recentes acabou por explodir nestes dias aqui no Brasil com o escândalo da exploração de trabalho escravo pela Zara, do grupo espanhol Inditex.
O episódio é tão rico em detalhes e metáforas que pode acabar escapando seu sentido e interpretação mais profundos. Poderia se falar da imagem da contradição de roupas caras de griffe a venda nos melhores shoppings ter sido tecida pela miséria do trabalho escravo. Poderia se falar de uma Espanha na qual a xenofobia foi a arma mais insidiosa da campanha eleitoral ao mesmo tempo que um dos seus mais importamtes conglomerados trafica imigrantes bolivianos para tirar-lhes toda a dignidade numa vida de escravidão no Brasil. Poderia ser falado como uma grife famosa se torna agora uma anti-grife na medida em que qualquer pessoas que usar roupas da marca estará publicamente admitindo que compactua com a escravidão e não está nem aí para o sofrimento. Todas estas mensagens e outras que poderia ser tiradas são verdadeiras e tem sua importância. Mas elas não podem ocultar o grande plano no qual se desenrola a grande contradição na economia e na política que o Escândalo Zara desnuda. Esta contradição, que contém e resume as anteriores, é de um país cuja juventude está na vanguarda das manifestações que expressam um desejo de uma Nova Política e cuja velha elite econômica, da qual o Grupo Inditex é notável expoente, pratica o regresso às práticas mais infames da humanidade para aumentar seu lucro.
Na base da crise política espanhola está sobretudo o desemprego entre os jovens mais escolarizados, desesperados com a falta de perspectivas para suas vidas e acuados por um governo que para sustentar a banca internacional reduz a oferta de serviços sociais. Para que gerar empregos caros na Espanha se é possível reeditar a escravidão nas "colônias" até em segmentos de ponta com elevadíssimo valor agregado como roupas de luxo, devem se perguntar os rentistas que ao mesmo tempo beneficiam-se das políticas governamentais espanholas de garantir seus lucros e geram a crise ao votar em políticas como a da Zara nas reuniões de acionistas.
Mas esta contradição econômica que parece extraída de um filme de Michael Moore gera apenas um desconforto político impreciso na Espanha como no Brasil. Na Espanha partidos com campanhas nazistóides contra os imigrantes aumentaram suas votações, chegaram a quintuplicar sua representação em plena Catalunha que sempre foi vista como um berço do que havia de mais progressista na Espanha e é o foco principal dos "Indignados". A explicação para esta aparente contradição entre revolta progressista e voto reacionário é bem mais simples que a maioria: os jovens preferiram não votar.
A ligação entre o desalento político dos insatisfeitos e os resultados eleitorais favorecendo as posições políticas extremadas no sentido contrário é tão comum que é quase uma "lei" da ciência política. De um lado ao deixar de votar no "mal menor" aumenta-se o peso eleitoral da visão mais oposta, de outro lado a mobilização dos insatisfeitos também assusta e radicaliza a posição dos "satisfeitos" levando-os a optar por uma plataforma política mais intransigente na defesa de seus privilégios.
O mesmo movimento de busca no lucro máximo sem controle que rouba os empregos dos jovens espanhóis rouba a dignidade dos escravos bolivianos, o respeito às leis brasileiras e os princípios mais básicos de humanidade a todos os envolvidos. Mas não se pode ser ingênuo, quem anda pelas ruas do Glicério sabe a ocupação de tantos infelizes bolivianos que encontra ali meio fugidios, desconfia de qual é a função daqueles prédios sombrios nos quais eles entram apressados e assustados. Novidade apavorante mesmo é aquilo que era renda marginal de empresários inescrupulosos tornar-se política de recursos humanos de uma grande corporação internacional que resolveu combater a pirataria tornando-se o mais sórdido tipo de pirata, o traficante de escravos.
Ainda não apareceu ninguém dizendo que ao menos a empresa estava gerando empregos no Brasil. Mas não é impossível que aconteça porque a política de cortejar o capital internacional a qualquer custo tornou-se tão arraigada que já não se olha nenhuma relação custo/benefício desta submissão. Tanto o governo espanhol que esquece e gera indignação nos seus jovens para garantir os lucros da banca quanto todos aqueles que saudaram os "empregos" que as Zaras criam no Brasil esquecem a natureza essencialmente egoísta deste capital multinacional, o qual só espalhará miséria e sofrimento para ter lucro máximo se não estiver delimitado por controles sociais bem definidos e firmemente fiscalizados.
Nada contradiz mais o rótulo de "moderno" que este capital usa para argumentar contra qualquer regulação como o regresso aos piores momentos da senzala patrocinada pela Inditex. Este escândalo grita aos nossos ouvidos que o capital livre do controle social não produz riqueza nem progresso, apenas sofrimento e atraso. Mais do que os jovens espanhóis, só podemos ficar indignados.


