Eu amo o Brasil
Viajar é sempre bom, e para nós que trabalhamos com comunicação serve como fonte de inspiração e matéria prima da mais alta qualidade. Mais dessa vez confesso que o choque cultural da volta não me caiu bem. E olha que foram somente 4 dias. A simplicidade com que empresários e diretores das grandes companhias trabalham, a forma como negociam, a velocidade na informação, o feedback transparente e profissional... me deixaram realmente impactado. Mas fiz algo que não deveria fazer... cai na besteira da comparação. E o resultado estou sentindo agora, horas depois de sair do avião. Até porque assim que pisei no aeroporto e liguei meu celular, ele logo se pronunciou com a ligação de um número desconhecido (bloqueado). Atendi naturalmente, pensando ser um cliente... mas para maximizar minha sensação de desespero/desgosto, era mais uma daquelas mulheres se passando por minha mãe, contando uma história daquelas bem cabeludas de sequestro. E o pior é que a pessoa trabalhava mal... claro que ouvi até o final...porque não existe nada mais emocionate e divertido do que ficar dando linha para esses verdadeiros artistas do cenário cultural do Brasil. Esses caras precisam trabalhar em novela mexicana...ou reinventar o método..sei lá..precisam brifar alguma agência para trazer uma desgraça nova. Quem sabe dizer que sua irmã está se afogando em alguma enchente, ou que o carro do seu pai pegou um buraco na marginal e capotou 3 vezes... coisas mais reais....que provavelmente teriam mais resultados. Aqui pagamos caro por tudo, e ninguém recebe nada de volta. IPVA, IPTU, Seguro Obrigatório (que vc é obrigado a pagar, como o próprio nome diz), Seguro para o carro, Plano de Saúde, Escola Particular para os filhos, clube, já que brincar na rua é perigoso, e uma infinidade de outras coisas... E ainda por cima, tudo que poderia funcionar, por sermos um dos paises que mais arrecada impostos do mundo, não funciona. Transporte público, educação, acesso a cultura e entretenimento..etcetcetc... Vivemos sob a cultura do medo. Medo de ser multado, de ser pego na blitz do bafômetro, de não pagar em dia o seguro e ficar descoberto, de um radar móvel colocado num lugar estratégico, do cet que multa por tudo (esses dias um deles me multou porque pedi informação para um carro ao lado do meu no trânsito - eles já criaram a lei própria dos amarelinhos), de não pagar a pensão porque isso, segundo o mito popular, é a única coisa que dá cadeia nesse pais. Até nossas cantigas infantis amedrontam as pequenas criancinhas indefesas. "Boi boi boi, boi da cara preta, pega essa criança que tem medo de careta." "Atirei o pau no gato, mas o gato não morreu." "Nana neném, que a cuca vem pegar". Bizarro.
Mas ainda temos o futebol. Ainda temos o nosso jeitinho. Jeitinho que damos pra tudo... negociamos o plano do celular dizendo que a outra operadora fez uma suuperr proposta incrível... e a pessoa do outro lado, adapta a proposta conforme a capacidade do cliente em ser chato. Deve existir uma tabela que diz: Cliente chato nível 1 - desconto de 20% e um celular novo. Cliente Insuportável - desconto de 80% + bonus na primeira conta e aparelho novo para a família toda.
Mas daí a gente volta se depara com tudo isso e continua. E se adapta. E vê beleza. Isso é coisa de quem ama. Penso em algumas pessoas que amo e que não consigo mudar o jeito delas. As vezes seria tão melhor a convivência se ouvissem um pouco daquilo dos que estão em volta dizem, aconselham. E mesmo batendo a cabeça estamos ao lado, prontos e dispostos a ajudar. Isso é coisa de gente que ama de verdade. Que por pior que uma situação possa parecer, lá na frente é menor do que o sentimento que supera tudo. O amor.
obs: essa imagem foi tirada pela folha de sp, ontem as 18h no metro sé.


